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Estas Mãos


Estas Mãos Cora Coralina



Olha para estas mãos
de mulher roceira,
esforçadas mãos cavouqueiras.

Pesadas, de falanges curtas,
sem trato e sem carinho.
Ossudas e grosseiras.

Mãos que jamais calçaram luvas.
Nunca para elas o brilho dos anéis.
Minha pequenina aliança.
Um dia o chamado heróico emocionante:
- Dei Ouro para o Bem de São Paulo.

Mãos que varreram e cozinharam.
Lavaram e estenderam
roupas nos varais.
Pouparam e remendaram.
Mãos domésticas e remendonas.

Íntimas da economia,
do arroz e do feijão
da sua casa.
Do tacho de cobre.
Da panela de barro.
Da acha de lenha.
Da cinza da fornalha.
Que encestavam o velho barreleiro
e faziam sabão.

Minhas mãos doceiras...
jamais ociosas.
Fecundas. Imensas e ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar,
ajudar, unir e abençoar.

Mãos de semeador...
Afeitas à sementeira do trabalho
Minhas mãos raízes
procurando a terra.
Semeando sempre.
Jamais para elas
os júbilos da colheita.

Mãos tenazes e obtusas,
feridas na remoçãode pedras e tropeços,
quebrando as arestas da vida
Mãos alavancas
na escava de construções inconclusas.

Mãos pequenas e curtas de mulher
que nunca encontrou nada na vida.
Caminheira de uma longa estrada.
Sempre a caminhar.
Sozinha a procurar
o ângulo prometido,
a pedra rejeitada.


Cora Coralina
Meu Livro de Cordel – 1976


Um pouco de poesia

Ontem passei o dia arrumando os livros na estante, meu objetivo era livrá-los do pó e organizá-los dentro de alguma lógica, o trabalho estava indo bem, rapidamente terminei com a sessão de “livros escolares”, passei para os livros relacionados à política, separei alguns para reler, rumei para os livros de poesia... Folheei alguns, e me deparei com meus poemas preferidos, há quanto tempo não fazia isso... Me lembrei de quando me encantei por eles, eu estava na 8a série, descobri primeiro Mário Quintana, senti algo que não sei explicar, um sentimento que enche a alma, acho que é um misto de esperança e alegria, um sentimento de que a vida é muito maior do que podemos entender e explicar! Não quero que esse sentimento se vá, estou decidida a trazer os poemas para mais perto de mim, na hora pensei, porque não levá-los para o blog? Em uma rápida busca na internet (momento em que a arrumação fica de lado), descobri que muitos nomes da literatura tratam da comida em lindos versos, Pablo Neruda, Carlos Drummond Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Cora Coralina e muitos outros.

A partir de hoje, compartilho aqui, alguns desses lindos poemas!! <3

Ode à Maçã - Pablo Neruda

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